Fiquei muito feliz quando fui convidado pelo pessoal do NCE, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, para ser um dos palestrantes do I Fórum de Tecnologias em Marketing Digital que ocorreu em 17 de Abril de 2012. Escolhi então o tema “Inteligência Estratégica aplicada ao Marketing Digital” como tema. A seguir segue mais ou menos como foi o desenvolvimento desta palestra e um link para o material apresentado. O texto ficou meio longo porque é quase uma transcrição da palestra, mas espero que vocês fiquem até o final e se divirtam
Vou começar falando de uma empresa que todos conhecem. A Apple, a empresa da maçã, é hoje uma das maiores empresas do mundo. Mas em 1996 as coisas não iam tão bem neste pomar. Nos primeiros três meses de 96 a empresa acumulou um prejuízo de 69 milhões de dólares e demitiu 1.300 de seus talentosos funcionários. Nos 18 meses seguintes ela perdeu 1,6 bilhão de dólares, sua participação no mercado despencou de 10% para 3% e em 1997 ela relatou o maior prejuízo trimestral sofrido por uma empresa no Vale do Silício até então: 750 milhões de dólares.
Mais ou menos na mesma época uma empresa brasileira também passava por um momento complicado. A Mesbla começou na França em 1912, mas tornou-se uma empresa nacional e era um dos locais favoritos das famílias brasileira para comprar roupas, artigos de casa, brinquedos, discos, carros, lanchas… Mas em 1995 os credores da Mesbla pediram sua concordata. Nesta época a empresa possuía uma divida de 295 milhões de reais, mais 200 milhões em garantias. Para tentar resolver seus problemas, uma série de medidas foram tomadas. A empresa demitiu 2.500 funcionários e reduziu o quadro de executivos de 40 para 7 pessoas, por exemplo.
As duas estavam indo em passos consistentes para o abismo, mas a história nos mostra a Apple dando a volta e alçando cada dia voos mais altos enquanto a Mesbla mergulhou de cabeça neste abismo. Então, qual a diferença entre as duas empresas? O que a Apple tinha que a Mesbla não tinha? Alguns, com certeza, responderão “A Apple tinha o Steve!”. É verdade, isso fez alguma diferença. Mas nesta altura, nem mesmo o Steve Jobs tinha a confiança de que a empresa poderia ser salva. Então não era só isso.
O que eu acho? A Apple tinha clientes fieis, engajados, apaixonados! Eram mais de 45 milhões de usuários e a grande maioria adorava as suas maçãs. Já a Mesbla tinha clientes confusos. Confusos porque a empresa não sabia muito bem como se posicionar. Mostrava-se como um magazine chique, mas vendia produtos a preços baixos como uma loja de descontos. Concorria ao mesmo tempo com verdadeiras butiques da época e com pequenos mercados e lojinhas de produtos chineses.
Tem uma história dos clientes da Apple nesta época que me deixa quase emocionado. Naquela época não existia rede social, twitter, facebook, flashmob, nada destas coisas… mas o cliente da Apple voluntariamente se mobilizaram para ajudar a empresa a se reerguer. Vários clientes usavam o seu tempo livre e frequentavam lojas de eletrônicos com o objetivo de convencer as pessoas a compra um mac ao invés de um PC. Notem bem, elas não ganhavam comissão ou pontos em um programa member-get-member. Nada disso, mas estavam lutando pela continuidade daquela empresa.
Então tem um sujeito que manda e desmanda as marcas e empresas para o abismo e este sujeito não é o Steve. Este sujeito é ninguém mais, ninguém menos que o cliente. Hoje ainda é assim, sempre foi assim, mas o que mudou? Na minha opinião a única diferença é que nós hoje vivemos em um mundo muito mais conectado, plano, mais complexo e muito mais divertido. Nunca a frase “o cliente tem sempre a razão” foi tão verdadeira.
Lembra aquela máxima onde o cliente satisfeito conta para duas pessoas e o insatisfeito conta para oito. Isso não mudou, só que agora corre o risco de um destes oito ser o Kaká é aí ele vai contar para mais de 15 milhões de pessoas!
Mas se o fórum é de tecnologia e marketing digital, coisas modernas, por que estou falando de historias que aconteceram há tanto tempo? Simplesmente para nos lembrar que, no fundo, estamos sempre falando das pessoas. A wikipedia, por exemplo, nos diz que “A Internet é um conglomerado de redes em escala mundial de milhões de computadores interligados pelo protocolo de comunicação TCP/IPque permite o acesso a informações e todo tipo de transferência de dados. (http://pt.wikipedia.org/wiki/Internet).” Eu, particularmente, acho que esta definição está errada! A definição correta deveria ser algo como “Um montão de gente conectadas e interagindo através de aparelhos cada vez menores e mais bacanas”.
Mas a palestra é de Inteligência Estratégica aplicada ao Marketing Digital. E o que é esta tal de Inteligência Estratégica. Bem, este mundo complexo e divertido em que as pessoas se conectam através dos aparelhinhos… Eles servem para namorar, juntar casais de almas gêmeas, divulgar as piadas que antes eram contadas nos bares… Também servem para trabalhar, comprar, arrumar emprego… Mas tem um efeito colateral que é o seguinte: tudo que passa por esta rede de aparelhinhos fica gravado por muito tempo. E fica disponível para todo mundo.
Então, Inteligência Estratégica é pegar esta montanha de informação e usar, por exemplo, no marketing digital. É transformar este bando de dados em conhecimento relevante que possa ser usado de forma a criar um diferencial competitivo para empresa. Então é importante entender a Inteligência Estratégica como uma caixinha de ferramentas. Nela tem um monte de coisas… Tem CRM? Tem. Tem DBM? Tem. Tem BI? Tem. Tem Monitoramento de Redes Sociais? Tem. Tem mineração de dados, lógica nebulosa, rede neurais? Tem.
Mas não é uma caixinha de ferramentas da NASA, com ciências espaciais, ou do Paulo Coelho, com ciências ocultas. Tampouco são coisas de ultíssima geração. O conhecimento e as ferramentas necessárias para utilizar esta caixa estão aí, disponíveis. Isso é uma das coisas legais deste mundo complexo e divertido… Tá tudo aí disponível para qualquer um. A informação tá disponível, as técnicas estão explicadas e as ferramentas, muitas vezes, são até de graça!
Para ser mais prático, vou escrever sobre email marketing porque todo mundo já usou email marketing. Então, como seria montar uma campanha de email marketing sem usar Inteligência Estratégica? O responsável pelo marketing reúne um grupo de interessados e começam as discussões sobre quais produtos serão incluídos na campanha. Como o gerente de marketing quer garantir um bom resultado para a campanha, coloca em destaque o produto campeão de vendas, mesmo sabendo que ele já era o campeão de vendas sem nenhuma campanha de email. Já cada gerente comercial coloca os produtos que precisa vender, aqueles que estão encalhados no estoque, por exemplo. Depois é só disparar e partir para a comemoração.
Mal ou bem já começa a fazer uso da Inteligência quem monitora os resultados das campanhas continuamente e usa esta informação para otimizar os resultados. No fundo, dá para fazer isso no Excel. Fazendo uma analogia com a caixa de ferramentas, ainda é um uso básico, como se nesta caixa houvesse apenas pregos e martelos. Mas dá para fazer coisas bem legais com pregos e martelos.
O próximo passo seria enviar htmls personalizados de acordo com o segmento de cliente. Clientes mais propensos a comprar produtos de uma determinada linha, receberiam um email com destaque para estes produtos. Clientes que estão há muito tempo sem comprar, veriam preços com desconto e assim por diante. Mas não existe nenhuma lei que exige que o email que foi enviado no momento do disparo seja imutável. Não é mala direta, é html! Por que não fazer uma personalização On The Fly?
Bem, o email marketing é apenas uma ação feijão com arroz no marketing digital que pode ser otimizada com o uso estratégico da informação. O importante não é pensar em termos de email marketing, mas sim nas infinitas possibilidades onde a Inteligência Estratégica pode ser aplicada. Seja ela na parte do marketing que trata das mídias digitais ou em qualquer outro canal.
O material apresentado pode ser encontrado no seguinte link.
Bons resultados e até a próxima.
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